Das terras pequenas

É uma terra pequena esta onde sempre vivi e eu perdi-lhe o gosto.

Vou e venho todos os dias. Daqui saio e aqui entro. Conheço-a desde sempre porque sempre me conheci aqui. Conheço os nomes, reconheço caras mas já não conheço pessoas. Perdi-me desta terra pequena onde todos se conhecem e onde as histórias correm bocas e de boca em boca se acrescentam pontos. Se calhar é daí que vem a minha má audição, já é inato eu acrescentar pontos a histórias que não entendi à primeira, nem à segunda – ouço mal.
Cheguei à idade da parvalheira e idealizei uma vida fora daqui, para poder ser rebelde onde ninguém me conheceria, onde ninguém inventaria nem ninguém julgaria, um lugar onde a solidão me esperaria e eu sem o imaginar. Tornou-se um sítio que tem a minha casa e a minha família e essa era a única razão de cá parar. E cá páro todos os dias mas só fisicamente. Os passeios tornaram-se caminhos assustadores, onde pessoas conhecidas me olhavam como uma desconhecida. “Estás emigrada?”, não, mas é como se fosse.
Estou cá todos os dias mas hoje estive mais do que em muitos anos. Passeei pela terrinha como se não a visse há já uns valentes anos, não por o querer viver assim mas porque o senti assim. Senti aquelas pedras no passeio com nostalgia, vi-me pequena e feliz, vi-me pequena e inocente, vi-me pequena e sem poder voltar atrás no tempo. Cheirei a terra que me acolhe desde que me conheço e percebi que não foi ela quem perdeu o encanto ou o brilho, fui eu.

Ainda sonho fora daqui, perdi-lhe o gosto mas não o amor, vou voltar sempre (nem que daqui nunca saia).