Espelho-búzio

O tempo passou, já estou nos vinte e com a idade perdi o posto de “espelho-búzio”, já não páro em frente à televisão sem motivo aparente, agora já vos deixo verem televisão sem interrupções, agora sou crescida. E, talvez por ser crescida, também perdi a qualidade de “pendura”, não me debruço no seu ombro como tantas vezes costumava fazer com o mesmo motivo pelo qual era espelho-búzio - sem motivo aparente. Se calhar foi a distância que me fez perder esse hábito que era motivo de gozo, ficou longe e assim o único toque que consigo dar é por telemóvel e, diga-se, esse poucas saudades mata.
Agora fico-me pelos abraços apertados e os beijos que me transportam para um passado onde todos os dias podia sentir a sua barba picar-me a cara que hoje já é menos sensível. E sento-me no sofá, como uma pessoa crescida, a ver filmes que, mesmo escolhidos a dedo, não enchem as medidas ao homem.
Mas, agora, até não me importo de ficar só pelo seu cheiro a tabaco e aftershave porque é sinal que ele anda perto.

Isto da distância não tira só a vista, o toque ou o cheiro, esquece jeitos ou hábitos e, agora, já não repito aquele sorriso jocoso porque já não me chama "espelho-búzio".

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