A arte de agradecer


Aqui em Vieira os mais velhos têm por hábito agradecer o que de bem se lhes faz com comida ou uma garrafinha de vinho, depende sempre da preferência do bem-feitor. A chouricinha e uma boa pinga cabem sempre no saco para entregar ao patrão que, nem que seja estrangeiro, vai ver o bom que é o animal cá da terra e como se trabalha a uva. Só não vai mesmo o bacalhau porque ele disse que não gostava se não bem que levava com o bacalhau no Natal.
Talvez por ser de uma geração que nem gorjetas sabe dar, ainda não soube por em prática esta arte do "agradecer". Meia volta, levo comigo barquilheres. Desconfio que os barquilheres (ou barquilhos) possam ser uma iniciação a este ritual de agradecimento. Os barquilheres são a bolachinha predileta da família, não somos nós que a fazemos mas eu conheço as latinhas da minha tia e da minha avó, bem fechadinhas para não deixar o ar amolecer os barquilheres que a dona-não-sei-quantas faz, desde sempre! Aconselho todos a provarem os barquilheres com gelado ou doce; apesar de eu sempre os ter comido secos, acredito que fiquem uma delicia. E quando levo uma latinha comigo levo-a para saberem que não me esqueço do bem que me fazem e que, desta vez, trouxe barquilheres mas, da próxima, trago o que for preciso.
Estes dias, deram-me uma grande prova de confiança e eu, desajeitada como sou, não sei como a agradecer, por isso, desconfio que vou ter de sacar da lata de barquilheres mais uma vez. Entretanto, e com ou sem barquilheres, eu vou tentar agradecer do jeito que sei, dando o meu melhor e tentando não enfiar os pés pelas mãos.

Sem comentários: