O bocadinho e o futebol


Tirei os sapatos e enviei a mensagem do costume: “chegamos”.
Pelo caminho, o locutor relatava o jogo com muito menos entusiasmo e sofrimento do que tu. O jogo já não estava a correr bem para ti e eu não aguentei tanta sofreguidão na voz, quis acompanhar o coração cheio e, se a chuva caía lá fora, no escuro, dentro do carro o David Fonseca acompanhava-nos em nome próprio mas com ar de Silence 4.
Para não variar, foi já em casa, de porta trancada e longe de ti, que te disse o quanto gosto de ti, esperando que percebas que isso significa que me és o mundo. É, eu funciono assim, mesmo à mulher, à espera que depreendam as mensagens subliminares em coisas que parecem o que são mas às quais eu atribuo ainda mais significado.
Pergunto-me se o telemóvel não guarda mais segredos nossos do que nós próprios. Conto-te tanto por telemóvel com medo de me esquecer de to dizer das poucas vezes que estou contigo, digo-te tanto por mensagens instantâneas que quando estou contigo perco assunto. Nunca foste de falar muito e eu tenho o receio infundado de dizer barbaridades que te façam por a mão na testa, acenar um não e ter vergonha de mim.
O tempo e as circunstâncias tornaram-te mais introvertido. Por vezes, gostava que me falasses com o mesmo gozo com que vês futebol, com o mesmo hiperbolizar de lances que, mesmo não tendo perigo nenhum, são sempre oportunidades de golo falhadas; porque, sempre que falas, eu olho para ti com o entusiasmo e o gozo com que te vejo ver futebol, mesmo que fales de futebol.
E, sempre que chegarmos, dizemos-te o quanto gostamos do bocadinho, mesmo que entretanto esqueça e tu também nunca mais te lembres.

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