Traições que enganam as saudades

No outro dia, fiquei a sentir o tabaco de outro porque tinha o seu cheiro. Lido assim, até pode parecer uma traição e, se pensar muito no assunto, também o entendo assim, mas o coração precisa de combustível quando está mais carente.

Nunca gostei de tabaco. Odeio os dedos em V que seguram o palito de papel que toca os lábios secos e queima à medida que as narinas se encolhem para puxar o fumo que a língua empurra para fora, dando a ilusão de se tratar apenas de um dia gelado e uma respiração mais profunda. O fumo entope-me a garganta e deixa a roupa e cabelo mal-cheirosos, faz-me tossir e deixa-me com lágrimas nos olhos.
Os cigarros são o meu ódio de estimação, só que neles descobri uma forma de enganar as saudades, de o fingir perto de mim e aquecer o coração. O cheiro lembra-me as suas mãos ásperas e duras, a unha excessivamente grande e o seu ar de quem sabe (quase) tudo porque, simplesmente, o sabe.

Posso não falar sempre mas nunca, nunca - caramba -, nunca mesmo me esqueço.

1 comentário:

Ana Garcês disse...

Caraças, pá. Forte!