O assobio que me acalmou

Estávamos no Verão e as idas ao Porto eram um corridinho. Pouco conheci da cidade porque entrávamos na auto-estrada para sair, meia hora mais tarde, em direção ao Hospital. Numa idade em que as horas parecem dias, estas viagens eram ainda mais dolorosas porque ia lá para saber dele.´
Os cartões de visita nunca chegam, ainda para mais numa família com dez filhos e o dobro dos netos. A sorte dos mais velhos é que mandam nos mais novos e, por razões que a idade ainda não me ajudou a compreender, acham que sabem o que é melhor para uma criança que está em riscos de lidar com a morte, mais uma vez, e só eles vão saber do gigante.
O meu avô era enorme. O meu avô era um sábio. O meu avô era o cavalheiro dos cavalheiros e o mestre de todas as lições. O meu avô era meu padrinho e eu só o descobri, vergonhosamente, muito mais tarde quando me vi obrigada a perguntar aos meus pais quem eram os meus padrinhos, uma vez que nunca tinha tratado ninguém por “madrinha” ou “padrinho”. Pois, eram eles, os meus avós da Baralha, os meus avós do casarão, dos campos, dos cães e do carro espada.
Não pude conhecer melhor o meu avô mas sempre ouvi a sua voz doce e discurso assertivo quando mais deles precisei. Ainda hoje o faço.
Foi de sapatilhas vermelhas que soube que ele partiu, o que me obrigou a ir comprar umas novas porque não caía bem ir de cores vivas para o funeral. Acordei na cama de uma prima porque já todos previam aquilo que no dia anterior eu tinha rezado para que nunca chegasse a acontecer. O telemóvel tocou e eu já sabia o que era, mal ouvi o que a minha mãe me disse, vesti-me de nó na garganta, disse adeus à minha prima e meti-me no elevador onde chorei pela primeira vez, de sapatilhas vermelhas calçadas.
Nesse dia desacreditei-me de um Deus que está lá em cima a olhar por nós. Se estivesse, tinha-me ouvido, a mim e a mais três dezenas de pessoas. Mas também foi neste dia que soube o que era acreditar num bem maior: saber que eles nos olham lá de cima, que nos reviram os olhos e vergam sobrancelhas quando é preciso e que sorriem a maior parte dos dias porque não estão a perder o nosso crescimento, que até nem é assim tão tempestuoso.

E foi com este assobio que comemora a caída do muro de Berlim que eu aguentei os dias seguintes.

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