Os monos da minha avó

Acho que a minha avó não é como as vossas. Não levem a mal, não é melhor mas (de certeza) não é pior.
A minha avó é peculiar. A minha avó é a verdadeira que aguenta água quente em mãos acabadas de queimar. Eu queimo-me no forno e ando a chorar cada vez que tocam na ferida. Ela também acredita que comemos que nem esfomeados e nunca nos falta com comida, nem pão ou arroz de cabidela.
A minha avó é peculiar e a casa dela carrega as memórias dela e daqueles que a acompanham e que por ela passaram. E isto é muito bonito mas não é nada prático. As limpezas de Páscoa começam com mais de um mês de antecedência e com motivos para tal. Às vezes quase parece uma feira dos trezentos. Era agarrar na quinquilharia toda e fazer uma venda de garagem, não ficasse a garagem dela virada para nenhures.
O móvel é só um mas o espaço que tem é aproveitado ao máximo para pôr mais um santinho, mais uma moldura, mais uma jarra, mais um centro de flores de plástico e uma outra moldura. Disse que lhe vou oferecer uma moldura daqueles que dão para pôr para cima de dúzia e meia de fotografias porque, diz-me ela com todo o amor que está naquele coração mas nunca sai cá fora, gosta de olhar para a cara das pessoas.


Este ano conseguimos desimpedir dois “monos” lá de casa mas, para mal dos nossos pecados, já alguém lhe ofereceu um terceiro. Para o ano há mais limpezas e as deste ano ainda nem acabaram.

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